Uma bomba-relógio no seu dente chamada amálgama
Enxergar aquela “restauração prateada” apenas como algo antigo e feio é subestimar o que pode estar acontecendo por baixo da superfície. Em muitos casos, o que parece ser apenas uma obturação antiga esconde trincas estruturais graves no dente – verdadeiras linhas de fragilidade que se formam lentamente ao longo dos anos, até que, de repente, o dente se parte.
É por isso que eu costumo dizer, no consultório, que algumas restaurações de amálgama dentário funcionam como uma “bomba-relógio”: ficam silenciosas por muito tempo, mas já deixaram o dente vulnerável a uma fratura inesperada. E, quando o dente quebra, muitas vezes o dano é tão grande que exige tratamento de canal, coroas extensas ou até extração.
Entender por que isso acontece, quando o amálgama é um risco e como a odontologia moderna pode intervir com segurança é essencial para proteger a estrutura dos seus dentes antes que o problema apareça.
O que é o amálgama dentário e por que ele foi tão usado?
O amálgama dentário é um material restaurador metálico utilizado há mais de 150 anos na odontologia. É formado por uma liga de metais (como prata, cobre, estanho) misturada ao mercúrio metálico, que reage e endurece, formando uma restauração resistente e durável. Em média, o amálgama contém cerca de 50% de mercúrio em peso, quimicamente ligado à liga metálica.
Durante décadas, ele foi a principal escolha para restaurar dentes posteriores por ser:
- Durável em ambientes de alta carga mastigatória;
- Relativamente barato;
- Tecnicamente previsível em muitas situações clínicas.
Grandes entidades internacionais, como a American Dental Association (ADA) e a International Association for Dental Research (IADR), reforçam que, para a população em geral, o amálgama dentário é considerado seguro e eficaz como material restaurador quando bem indicado.
Por outro lado, o mundo caminha para a redução progressiva do uso do amálgama, principalmente por razões ambientais (em função do mercúrio), e não porque as restaurações existentes tenham sido declaradas “tóxicas” para todos. A Convenção de Minamata – um tratado internacional sobre mercúrio – prevê medidas para reduzir e, em muitos países, até eliminar gradualmente o uso de amálgama nas próximas décadas.Em termos simples: o material foi importante na história da odontologia, ainda é considerado seguro em muitos contextos, mas não é mais o protagonista em uma odontologia que busca preservar ao máximo a estrutura dentária e reduzir impactos ambientais.

Como o amálgama dentário pode comprometer a estrutura do dente
Mesmo sendo resistente, o amálgama dentário tem características físicas que podem, com o tempo, afetar a integridade do dente que o abriga, especialmente em restaurações grandes que envolvem várias faces do dente.
Alguns pontos importantes:
- O amálgama não adere quimicamente ao dente; ele é retido por “retenções mecânicas”, o que muitas vezes exige remover mais estrutura dentária saudável para conseguir “travar” o material.
- Ele é um material rígido, com comportamento de expansão e contração diante das mudanças de temperatura (bebidas quentes, geladas etc.), diferente do tecido dentário.
- Esse “vai e vem” volumétrico, ao longo dos anos, gera tensão interna nas paredes do dente, principalmente nas cúspides (as partes mais altas do dente) e nas regiões mais enfraquecidas.
Estudos que avaliam dentes restaurados com amálgama mostram que, em molares com restaurações extensas, há maior flexão das cúspides e níveis mais altos de estresse na estrutura dentária em comparação a dentes íntegros, o que favorece o surgimento de trincas ao longo do tempo.
Na prática clínica, isso significa: o dente pode aparentar estar íntegro, mas a restauração metálica rígida está funcionando, lentamente, como uma cunha que força o dente “de dentro para fora”.
Trincas silenciosas: quando o dente parece forte, mas está vulnerável
Na imagem que costumo mostrar aos pacientes, vemos uma restauração antiga de amálgama dentário cercada por linhas finas, quase transparentes, na estrutura do dente. Essas linhas não são apenas marcas superficiais: são trincas estruturais.
Essas microfissuras:
- São muitas vezes invisíveis a olho nu sem ampliação adequada;
- Podem não causar dor por anos;
- Podem ser identificadas em exame clínico detalhado com iluminação, lupas, corantes e radiografias;
- Aumentam o risco de uma fratura súbita, muitas vezes em um momento banal (ao morder algo um pouco mais duro, por exemplo).
Em alguns casos, a fratura é superficial e permite uma restauração conservadora. Em outros, a linha de fratura se aprofunda em direção à raiz. Quando isso acontece, o dente pode:
- Necessitar de tratamento de canal e reabilitação com coroa, ou
- Tornar-se irrestaurável, levando à extração
É aqui que entra a ideia da “bomba-relógio”: o dente não avisa, não dói, mas estruturalmente já está comprometido.
Nem todo amálgama dentário é um problema, mas todo caso precisa ser avaliado
É importante fazer uma distinção responsável: não é correto afirmar que toda restauração de amálgama obrigatoriamente causa fraturas ou que deve ser substituída apenas por existir. Estudos recentes analisando a relação entre fraturas dentárias e presença de restaurações de amálgama não encontraram, em determinadas condições, diferença estatisticamente significativa no risco de fratura somente pelo fato de o dente ter amálgama.
Então, qual é o ponto-chave?
- Restaurações muito extensas, que envolvem várias cúspides, aumentam a chance de o dente ficar fragilizado, seja com amálgama, seja com outros materiais;
- Em dentes já trincados, com sintomas de dor à mastigação, sensibilidade localizada ou histórico de fraturas, restaurações metálicas rígidas podem agravar o quadro;
- Restaurações antigas, infiltradas ou com sinais de corrosão e margens defeituosas merecem atenção redobrada.
Por isso, a decisão sobre substituir ou não uma restauração de amálgama dentário deve ser baseada em:
- Exame clínico cuidadoso;
- Análise radiográfica;
- Avaliação da extensão da restauração;
- Presença (ou não) de trincas e sintomas;
- Contexto geral de saúde e expectativas do paciente.
A troca “por moda”, sem indicação clínica real, também é um risco: cada vez que mexemos em um dente, removemos um pouco mais de estrutura. O equilíbrio está em saber quando o amálgama está protegido e estável – e quando ele se tornou, de fato, um ponto de fragilidade.
Como a odontologia moderna substitui o amálgama com segurança
Quando identificamos que uma restauração de amálgama dentário está trazendo risco estrutural ao dente (trincas, infiltração, perda de suporte, sintomas), o planejamento da substituição precisa ser feito com critério.
Alguns passos importantes:
1° Isolamento e segurança
O ideal é trabalhar com isolamento adequado (como o dique de borracha), técnica cuidadosa de remoção em blocos quando possível e descarte responsável do material, respeitando normas ambientais e de biossegurança.
2° Avaliação da quantidade de dente remanescente
Após remover o amálgama, avaliamos o que sobrou de estrutura sadia. Em muitos casos, percebemos que a quantidade de dentina e esmalte remanescentes é menor do que parecia ao olhar a restauração pronta.
3° Escolha do tipo de reabilitação
De acordo com o caso, podemos indicar:
- Restaurações em resina composta adesiva, quando a perda de estrutura é moderada;
- Onlays ou overlays cerâmicos (restaurações indiretas que cobrem e reforçam cúspides fragilizadas);
- Coroas em casos em que a estrutura remanescente é muito reduzida.
Materiais adesivos modernos permitem unir a restauração ao dente, ajudando a redistribuir forças e reduzir o risco de novas trincas quando bem planejados.
- Controle de parafunções, como o bruxismo
Em pacientes que apertam ou rangem os dentes, muitas vezes é necessário complementar o tratamento com placa miorrelaxante e ajuste oclusal para proteger o dente reabilitado.
A ideia não é simplesmente “trocar o prata pelo branquinho”, mas reconstruir o dente de forma mais biomimética, respeitando sua anatomia, função e limites.

Perguntas frequentes sobre amálgama dentário
“Amálgama é veneno? Ele está me intoxicando?”
As principais entidades científicas internacionais indicam que, para a população em geral, o amálgama dentário é considerado um material seguro e eficaz quando bem indicado. O mercúrio presente está quimicamente ligado à liga metálica, e os níveis de exposição em pacientes com restaurações dentro dos padrões são considerados abaixo dos limites de risco para indivíduos saudáveis.
Há grupos específicos – como pessoas com alergia conhecida a componentes do amálgama ou com doenças renais graves – que podem exigir uma abordagem diferenciada. Por isso, a avaliação individual é fundamental.
“Preciso remover todos os amálgamas da boca?”
Não existe recomendação universal para a remoção de todas as restaurações de amálgama dentário apenas pelo fato de existirem. Substituições desnecessárias podem enfraquecer dentes que estão estáveis e sem trincas, além de expor o paciente a procedimentos complexos sem benefício real.
O foco deve ser:
- Identificar restaurações que já estão comprometendo a estrutura do dente;
- Planejar a troca de forma segura e gradual, se houver múltiplos dentes envolvidos;
- Priorizar dentes com trincas, infiltração ou sintomas.
“As resinas e cerâmicas são sempre melhores?”
Materiais estéticos modernos, como resinas compostas e cerâmicas, oferecem vantagens importantes: adesão ao dente, possibilidade de preparos mais conservadores e excelente resultado estético. Porém, cada material tem suas limitações e exigências técnicas.
Em muitas situações, com bom planejamento, esses materiais permitem uma reabilitação mais conservadora e funcional do que manter um amálgama dentário antigo e trincado. Em outras, a melhor decisão pode ser monitorar uma restauração estável e sem sinais de risco.
O ponto central é: a escolha do material deve ser personalizada, e não baseada apenas em cor ou preferência estética.
Agende sua avaliação e descubra se o seu amálgama dentário é uma bomba-relógio
Se você olha no espelho e ainda vê restaurações “prateadas”, isso não significa automaticamente que seus dentes estão em perigo – mas é um sinal claro de que vale a pena avaliar. Muitas trincas são silenciosas e só aparecem em exames detalhados, com olhar treinado e recursos diagnósticos adequados.
Na Clínica Debora Ayala, cada dente com amálgama dentário é analisado considerando:
- A integridade da estrutura ao redor;
- A presença de trincas e infiltrações;
- Sua história de sintomas, dor ou fraturas;
- Seu contexto de saúde geral e seus objetivos a longo prazo.
O objetivo não é gerar medo, e sim oferecer informação qualificada para que você tome decisões conscientes: quando manter, quando monitorar e quando substituir uma restauração antiga antes que ela se transforme em uma fratura inesperada.
Entre em contato com a equipe da Clínica Debora Ayala e agende uma consulta personalizada. Vamos avaliar juntos se o seu amálgama é apenas uma lembrança de uma época antiga da odontologia ou se já se tornou uma bomba-relógio que precisa ser desarmada com segurança.
Dra. Debora Ayala – CRO 41.974/SP
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